A efemeridade da vida

white and black butterfly on shrubs

Você já parou para agradecer por estar vivo hoje? Por ter saúde? Pelas pessoas que você ama estarem vivas?

Quando menos esperamos, a efemeridade da vida é escancarada à nossa frente. Para nos lembrar que não possuímos controle sobre todas as coisas. Nunca sabemos o dia de amanhã e nem quando uma doença avassaladora tirará vidas próximas a gente. Não temos controle sobre o tempo e nem nos damos conta o quão rápido ele passa. E quando menos a gente espera, aquela conversa pode ter sido a última. Aquele beijo. Aquele abraço. Aquele olhar. O não dito que ficou para depois, e o depois nunca mais chegou.

Vários dias e noites eu me pego pensando em quantas pessoas eu conheço que têm vivenciado essa dor e essa ausência. E penso também na quantidade avassaladora de pessoas que eu sequer conheço, mas que também estão sofrendo.

Ultrapassamos o absurdo número de mais de 102 mil vidas perdidas para um vírus. Familiares, amigos, colegas de trabalho que entraram para a estatística enquanto fomos conduzidos a relativizar essas mortes, retomar uma vida “normal”, satisfazer os nossos próprios desejos e anseios. 

Nas redes sociais eu vejo pessoas próximas a mim cujas vidas praticamente não mudaram em nada. Vejo “famosos” já viajando para a Europa e frequentando praias e casas noturnas lotadas.

É claro que todos sentimos falta das coisas mais triviais num mundo sem pandemia, que estamos de saco cheio das restrições, e não há nada de errado nisso.

Mas fingir que nada está acontecendo? Que não estamos sendo afetados nem um pouco por essa tragédia? Onde erramos que nos falta tanta empatia e compaixão? 

Eu sinto os reflexos do que estamos vivendo no meu corpo e no meu emocional. Acho que nunca tive tantas perguntas sem respostas, nunca olhei tanto para dentro de mim. 

É tempo de encararmos o lado mais sombrio da nossa humanidade, acolher nossas dores e defeitos, e também valorizar cada pedacinho e detalhe positivo. Precisamos nos acolher. Precisamos acolher o próximo. Precisamos falar mais sobre tantas vidas perdidas, entender o impacto profundo disso e não falar apenas do “novo normal” ou do que sentimos falta de um mundo sem covid.

Temos sim que olhar para frente, ter esperanças de um futuro melhor, mas reconhecendo o que estamos vivendo até aqui. Onde erramos como pessoas e onde erramos como nação. Não existe um único culpado para os mais de 100 mil mortos. 

Intercalo a escrita desse texto com as minhas lágrimas. Estou cansada, estou esgotada, estou no meio de uma crise de insônia, comecei o dia com a notícia da perda de um pai muito amado de uma amiga próxima para o vírus. Às vezes me questiono se devo me importar tanto assim ou se devo tentar ser mais como tanta gente. 

Mas mesmo doendo tanto, acho que o caminho é o do amor, da caridade, do perdão.

Escrevo mais uma vez meu coração e peço que vocês também se abram. Olhem para dentro de si. Prestem atenção aos seus corpos, aos seus sentimentos. Não deixem nada para depois. Digam tudo o que precisa ser dito antes que seja tarde demais. Cuidem-se. E se possível, fiquem em casa.  

*Dedico o texto de hoje a todas as pessoas que perderam um ente querido para o novo coronavírus. Em especial para a minha amiga Damaris Mendonça. 

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